quinta-feira, 6 de setembro de 2007
VARAL VIRTUAL - SONINHA PORTO
Os meus verdes, hoje, dançam assanhados,
gotas de chuvas penduram-se nos varais,
os brincos vermelhos fazem-lhes agrados,
buquês fartos, folhas e flores nada mais.
Este bailado que ora me inflama,
seduz tolas rimas das minhas lembranças,
sempre Amor na boca da triste dama,
misterioso amar que a alma reclama.
Não é preciso falar tudo o que penso,
nestes leves traços encontras o meu eu,
perdido, somente contigo renasceu.
Vou calar, não deves saber tudo de mim,
entrego escondido o verso que trai,
À névoa suave que cai... no meu jardim.
- soninha ferraresi porto
Grande beijo,
- Maira Knop
terça-feira, 4 de setembro de 2007
domingo, 2 de setembro de 2007
sexta-feira, 31 de agosto de 2007


Nei Duclós
* Originalmente publicado no blog Outubro.blogspot.com
“Peço demissão do cargo de habitante do planeta”
(trecho de uma carta de Dedé endereçada a mim, datada
de 27/abril/1977)
Foi-se, nesta madrugada de 24 de agosto de 2007, o
poeta Dedé Ferlauto, partindo o coração de todos os
seus amigos e de uma família brilhante, de um músico
(Leo), um arquiteto (Cláudio), um engenheiro (Felipe),
mais a família que ajudou também a inventar, mulher,
filhos, netos, enfim, todas as pessoas que conviveram
com ele nesta curta/longa vida. Palavras não servem de
consolo, ainda mais partindo de mim, que há muito
tempo não conversava com ele. Soube recentemente que
ele estava morando no sul da ilha. Mas, como disse em
meu livro Outubro, que Dedé gostava demais: a
linguagem é a única arma que eu disponho.
Fui amigo de Dedé, mais intensamente por um tempo, do
final dos 60 até o final dos anos 70, quando então nos
correspondíamos por carta, eu em São Paulo iniciando
uma vida dura na megalópole, ele, mais lúcido,
refugiado em Sapiranga, interior do Rio Grande do Sul.
De lá me enviou confidências e poemas. Um deles, Furto
Qualificado, diz assim: “Por todas as frestas/ de
todas as paredes/ desta casa/ muitos olhos espreitam/
consultam/ memorizam/ e sons são sugados,/
magnetizados/ por todos os poros/ da casa/ do corpo/
das palavras(...)”
Tomei conhecimento de Dedé Ferlauto quando vi, colados
em azulejos, selos/poemas assinados por Zé Liberdade.
Era ele. “Me sinto por fora desta coisas que andam
acontecendo entre as pessoas que escrevem, revistas,
editoras, livros e outros.”, me escreveu ele anos mais
tarde. “Os caras andam muito chatos com essa mania de
querer fazer História. Acho um saco. Caí fora. Me
sinto sem norte, sozinho e não me assusto”. Via-se
como um anarquista. Vejo-o como um outsider sincero,
que viveu integralmente sua literatura, a que fisga
pela vocação e carrega a criatura escolhida por toda a
vida.
Suas palavras, como de todo poeta, são proféticas.
Veja o que disse no final dos anos 70: “Ando
contrariado com minha vida profissional” (e quem não
anda, Dedé? acrescento agora eu). “O que é um
jornalista hoje em dia, salvo exceções? Não estou mais
aí pra andar informado da merda mundial.” Ele estava
em outra: “Enquanto isso vou procurando caminhar com
minhas próprias pernas e levando minhas palavras por
aí afora, como quem não quer nada. Quer nada? Como
quem? Como? Quem? Quer? Nada?”
Numa carta coletiva/manifesto, deixou claro sua ação
poética em trechos selecionados de grande lucidez: “É
compreendendo a angústia que se resolvem problemas, e
concomitantemente é compreendendo-a que ela se dissipa
numa grande e violenta atividade de criação. É olhar
para dentro, para mim, é tentar compreender as
linguagens que nos cercam (como as abelhas, como as
plantas, como a biodinâmica, como o ciclo de vida nas
plantas, hortaliças etc.) e pelas linguagens que
utilizamos para a nossa criação (abaixo a arquitetura,
viva a agricultura!). É dentro da angústia, da
indecisão, que é possível localizar o desconhecido, o
novo. “
Dedé não quis compactuar com políticas, grupos,
panelas. Preferiu a solidão poética, a verdadeira, a
que jamais consola, pelo sofrimento que provoca, mas a
única que garante a liberdade. Ele escolheu a
liberdade numa época em que tudo foi datado,
classificado, organizado, definido. Por isso Dedé
Ferlauto é uma prova viva de que podemos ser criaturas
livres, mesmo que isso nos custe uma vida difícil, mas
jamais apartada da grandeza.
Foi-se Dedé Ferlauto. Seus agitos continuam. Longa
vida à sua obra
ARMA
QUANDO ACORDARES
E NÃO ESTIVERMOS AO TEU REDOR
LEMBRA ISSO
O AMOR É O ÚNICO RECURSO
A ÚNICA ARMA
MESMO QUANDO CHORARES
ESQUECIDA
E ABANDONADA NAS ESQUINAS
O AMOR É A ÚNICA ARMA
QUE PODERÁS PORTAR
E USAR SEMPRE
SILÊNCIO
DOR SENTIA QUANDO LEMBRAVA
QUE TUDO O QUE QUERIA DIZER
ANDAVA AFOGADO
NAS SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS
QUANTO MAIS
BATO ASAS
MAIS CRESCEM
MINHAS RAÍZES
Varal Virtual - Renato Battistel
Varal Virtual - Barbara Corsetti

e assim contam as borboletas
entre uma folha e outra
onde os pés tropeçam
cantarolando notas rotas
a morte
esconde a carreta que leva o menino mau
no casaco azul
um sonho pula 3x
pintando de nuvem as estrelas
onde qualquer vento
cai entre os dedos dos anjos
e o gafanhoto
devora cérebro de cobras engravatadas
Barbara Corsetti
-Grupo CEro-
Varal Virtual - Marcela Villavella

Assim é a rosa...
Em uma manhã de verão
não havia que temer...
Mas um golpe é um golpe
mesmo que venha de tua mão.
Assim é a rosa.
Do fio de um grito
nasceu a solidão,
essa viajante a quem amei,
atravessa com suas garras
meu coração,
e murcho.
Se faz escura a vida em um instante,
e busco um mole
para afogar minha loucura
em teu mar.
Nasce a morte uma e outra vez
e não se deixa morrer.
Hoje choraria ao mundo
um pranto enamorado,
lhe diria que sem teu amor
se quebram as palavras.
Tenho os lábios apertados de dor
e não me acostumo.
Um golpe é um golpe,
mesmo que venha de tua mão.
Marcela Villavella
-Grupo Cero-Varal Virtual - Lúcia Bins Ely
Entreabertas loucuras e solidões
aterrisam neste breu
mescla-se violência e candura
nas crianças que ninguém vê que
vêm e morrem sorrindo.
Os peixes absorvem rápido o estremecimento
as mulheres dão folhas
e um ramo abrupto de relâmpagos
colhe com sutileza todo o
derramado...
E por baixo da terra vive
um fomento de luz
que morde
E colhe o supremo e o supérfluo
e as palavras que escorreram
do relâmpago, da mulher e
da morte das crianças...Lúcia Bins Ely
Grupo Cero
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Varal Virtual - Mára Bellini
domingo, 26 de agosto de 2007
Varal Virtual - Bruno Brum Paiva
Caricatura atômica desfilando faceira
nos entrelaços minúsculos do homem moderno
afoita e indecisa, como solta na poeira,
a não reflexão dos atos e o não pensar, eterno.
Embaralhado e maduro anfitrião
a escalar áridas e montanhosas calçadas,
já não tens mais revés ou patrão.
A vida devolveu-lhe ao tremor das alçadas.
O objeto opõem-se vagarosamente ao sujeito
menos encantador e travesso
suas virtudes mais parecem salientar o defeito,
inusitada flor da semente morta no gesso.
A potente intuição me coloca
frente ao abismo futuro.
A teimosia tem sua voz e não se desloca:
todos meus sins quebrarão o muro.
Bruno Brum Paiva
Varal Virtual - Américo Conte
ABACATEIRO DE PENSÃO
Sobre velhas telhas encardidas
atapetadas por musgos e liquens,
estendem-se galhos e folhas carcomidas
de um abacateiro de pensão.
Testemunho único de um rodízio de vidas
que se instalam em uma hospedaria do tempo,
de passagem a sonhos e metas preestabelecidas,
carregando na bagagem uma igual situação.
Fuxicos e fofocas não se contam mais em pauta
ante tantos outros fatos que já presenciou.
Bebedeiras, brigas, roubos e mesmo um simples tocar flauta
são coisas que auxiliam a um acumulo de tensão.
Desconfianças e despejos são jogos que prevalecem
numa casa de regras estabelecidas,
onde, às escondidas, sexo também acontece,
permitido que é em palavras, mas proibido em ação.
Porém não são só desavenças e entradas pelo cano,
alegrias esfuziantes por vezes os enaltecem,
principalmente no Natal e festas de fim de ano
confraternizam-se em sentimentos de grande comoção.
E o abacateiro quase esquecido e maltratado
possui seus momentos de atenção, pelos inquilinos,
que afirmam deveria ser ele cortado,
cedendo lugar a outra árvore, de melhor aproveitação.
Todavia ele exerce seus serviços no quintal.
Além de poste onde o cachorro fica amarrado
é também o suporte de um dos lados do varal
sendo, aos donos do local, imprescindível sua função.
Todos os anos, aos moradores, acalenta esperanças
quando frutinhas em seus galhos, brotam em abundância,
entretanto sucumbem, feito raquíticas crianças,
sobrando apenas algumas de duvidosa degustação.
Época difícil, em que só escuta injúrias,
tendo como único amigo o cachorro
que enroscado aos seus pés lhe confidencia lamúrias,
compartilhando a amargura de nunca poder ter razão.
Adubos e bons tratos, nunca a ele se destinam,
só o lembram como escada, para o consertar de telhas,
e o amigo confidente sempre em sua base urina...
Perdoa-o, pois sabe que na vida não existe perfeição.
Ciente de que um dia irá chegar o seu fim,
deixou de se aborrecer e se inconformar com o destino,
pois aprendeu que as pessoas continuam sempre assim,
uns tempo uns, outros, outros, conservando suas humanas condições.
Varal Virtual - Miguel Oscar Menassa
A POESIA
NÃO SE ENAMORA NUNCA
a meus filhos, discípulos e afins
Não me façais correr vossas carreiras
nem me façais voar em vossos vôos
nem me façais fazer vossos trabalhos
nem, tampouco, amar vossos amores.
Eu, filhos meus, com paixão,
os transportei voando,
sempre, a vosso lado,
desde os confins quietos da família
até as portas em liberdade do mundo.
Agora começa vossa viagem
e, se os deixo partir sem acompanhá-los,
é porque eu tenho minha própria viagem.
Devo pôr, no caminho que construí
com minha própria vida e escrevendo,
meu nome, meu sobrenome, minhas marcas,
meus sinais pessoais, que são a poesia.
No caminho encontrareis o ouro e a pobreza,
os precipícios fundos e as grandes planícies.
Haverá em vossos caminhos, não duvideis,
emboscadas, traições, vis injustiças,
por isso
é conveniente viajar acompanhado.
E, quando consigais algo de pão, algo de dinheiro,
tentai reparti-lo o melhor possível entre todos.
Alguém que comeu
e tem dinheiro para o pão de amanhã,
em algo se sentirá feliz e seu trabalho
não será dirigido pela fome ou pelo ódio
senão pelo amor ou pela liberdade.
E este é o verso onde tentarei
deixar-lhes o ensinamento mais necessário:
Numa sociedade justa, o trabalho é um dom:
uma alegria, um bem, humano propriamente,
com o qual se pode modificar o natural,
a vida, os enxames de sonhos, o sol.
Com o trabalho,
o homem pode voar sem asas,
navegar pelos mares sem conhecer o mar.
Da árvore,
estupefato de surpresa ante o homem
pode o trabalho arrancar uma cadeira
e, da pedra, os sinais
que forjam o porvir do homem,
sua casa,
seus monumentos,
sua própria lápide.
Grupo Cero
Varal Virtual - Eliane Marques
Foto de Mara Bellinidos teus atos
não houve testemunha
porém te viu a noite
e não podes evitar
que ela fale
por isso
te espera a casa dos mortos
onde se cultivam rosas
e trigo para tua colheita
choveu sangue
e não há mais
que grãos manchados
lá estará tua mãe
sem rezadeiras-pagas a lamentarem
e arrancarem o cabelo ao lado de seu corpo
todavia
tu não podes chorar
o negror de teus cílios
arruinaria a maquiagem de teu rosto
então
vá
e manda uma mulher
que chore por tiEliane Marques
Grupo CEro
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Varal Virtual - Elvio Vargas
sobraram para mim
este viveiro de ilusões quietas
e uma bicicleta
que até hoje pedalo
soprado pelos ventos
do fim do mundo.
BRINQUEDOS DE JÓ
"Depois das contrações, apareci.
Duas palmadas fortes e uma sede ardente, me despertaram.
O seio anunciado, estava seco. Nunca chorei pelo leite não derramado.
Troquei as dores do Édipo, pelas feridas de Rômulo. Um destino duro, sempre me guiou.
Domino pouco a arte das palavras. Só isto basta, para ventar céu, infernos e mortalha.
Guardo a sete chaves, desde os meus primeiros dias: ferramentas, utensílios
e os mais estranhos brinquedos de Jó."
Elvio Vargas









