quinta-feira, 14 de junho de 2007



Chama-se poesia tudo aquilo
Que fecha a porta aos imbecis
- Aldo Pellegrini -


A poesia tem uma porta hermeticamente fechada para os imbecis, aberta de par em par para os inocentes. Não é uma porta fechada com chave ou ferrolho, mas sua estrutura é tal que, por mais esforço que façam os imbecis, não conseguem abri-la, enquanto cede à simples presença dos inocentes. Não há nada mais oposto à imbecilidade que a inocência. A característica do imbecil é sua aspiração sistemática a certa ordem de poder. O inocente, ao contrário. Nega-se a exercer o poder porque possui todos.
Obviamente, o povo é o possuidor potencial da suprema aptidão poética: a inocência. E no povo, aqueles que sentem a coerção do poder como uma dor. O inocente, conscientemente, ou não, move-se num mundo no qual o único valor é dado pelo exercício do poder.
Os imbecis buscam o poder em qualquer forma de autoridade: o dinheiro em primeiro lugar e toda a estrutura do Estado, desde o poder dos governantes até o microscópico, porém corrosivo e sinistro poder dos burocratas, desde o poder da igreja até o poder que dão as leis. Todo esse acúmulo de poder está organizado contra a poesia.
Como a poesia significa liberdade, significa afirmação do homem autêntico, do homem que tenta realizar-se indubitavelmente, ela tem certo prestígio ante os imbecis. No mundo falsificado e artificial que constroem, os imbecis precisam de artigos de luxo, cortinados, bibelôs, jóias e algo assim como a poesia. Nessa poesia que eles usam, a palavra e a imagem convertem-se em elementos decorativos e, desse modo, seu poder de incandescência é destruído. Assim é criada a chamada poesia oficial, poesia de lantejoulas, poesia que soa oca.
A poesia nada mais é do que essa violenta necessidade de afirmar seu ser que impulsiona o homem. Opõe-se à vontade de não ser que guia as multidões domesticadas e se opõe à vontade de ser nos outros que se manifesta em quem exerce o poder.
Os imbecis vivem num mundo artificial e falso: baseados no poder que se pode exercer sobre os outros, negam a rotunda realidade do humano, a qual substituem por esquemas ocos. O mundo do poder é um mundo vazio de sentido, fora da realidade. O poeta busca na palavra não um modo de expressar-se, mas um modo de participar da própria realidade. Recorre à palavra, porém busca nela seu valor originário, a magia do momento de criação do verbo, momento em que não era um signo, mas parte da própria realidade. Mediante o verbo, o poeta não expressa a realidade, mas participa dela.
A porta da poesia não tem chave ou ferrolho: defende-se por sua qualidade de incandescência. Somente os inocentes, que tem o hábito do fogo purificador, que tem dedos ardentes, podem abrir essa porta e por ela penetrar na realidade.
A poesia pretende cumprir a tarefa de que este mundo não seja habitável somente para os imbecis.


Texto de Aldo Pellegrini, poeta argentino, do livro “Surrealismo Novo Mundo”, ed. da UFRGS – traduzido do espanhol por Lara Oleques de Almeida.

Um comentário:

Põe Zinha disse...

A-do-rei.

Me identifiquei. demais.
Tiraram os signos do meu cérebro.

Que bom, isso me conforta!