domingo, 26 de agosto de 2007

Varal Virtual - Américo Conte

ABACATEIRO DE PENSÃO

Sobre velhas telhas encardidas

atapetadas por musgos e liquens,

estendem-se galhos e folhas carcomidas

de um abacateiro de pensão.

Testemunho único de um rodízio de vidas

que se instalam em uma hospedaria do tempo,

de passagem a sonhos e metas preestabelecidas,

carregando na bagagem uma igual situação.

Fuxicos e fofocas não se contam mais em pauta

ante tantos outros fatos que já presenciou.

Bebedeiras, brigas, roubos e mesmo um simples tocar flauta

são coisas que auxiliam a um acumulo de tensão.

Desconfianças e despejos são jogos que prevalecem

numa casa de regras estabelecidas,

onde, às escondidas, sexo também acontece,

permitido que é em palavras, mas proibido em ação.

Porém não são só desavenças e entradas pelo cano,

alegrias esfuziantes por vezes os enaltecem,

principalmente no Natal e festas de fim de ano

confraternizam-se em sentimentos de grande comoção.

E o abacateiro quase esquecido e maltratado

possui seus momentos de atenção, pelos inquilinos,

que afirmam deveria ser ele cortado,

cedendo lugar a outra árvore, de melhor aproveitação.

Todavia ele exerce seus serviços no quintal.

Além de poste onde o cachorro fica amarrado

é também o suporte de um dos lados do varal

sendo, aos donos do local, imprescindível sua função.

Todos os anos, aos moradores, acalenta esperanças

quando frutinhas em seus galhos, brotam em abundância,

entretanto sucumbem, feito raquíticas crianças,

sobrando apenas algumas de duvidosa degustação.

Época difícil, em que só escuta injúrias,

tendo como único amigo o cachorro

que enroscado aos seus pés lhe confidencia lamúrias,

compartilhando a amargura de nunca poder ter razão.

Adubos e bons tratos, nunca a ele se destinam,

só o lembram como escada, para o consertar de telhas,

e o amigo confidente sempre em sua base urina...

Perdoa-o, pois sabe que na vida não existe perfeição.

Ciente de que um dia irá chegar o seu fim,

deixou de se aborrecer e se inconformar com o destino,

pois aprendeu que as pessoas continuam sempre assim,

uns tempo uns, outros, outros, conservando suas humanas condições.


Américo Conte

Um comentário:

Zi disse...

Gostei, Américo, do ritmo que imprimiste ao poema e mais ainda de teres dado voz , ou melhor, sentimentos, a um ser inanimado,porém vivo e esquecido como tantos outros que estão no mundo...
So não me ficou clara a última frase:"Uns tempo...". Talvez eu não a tenha compreendido no que querias expressar ou talvez mereça mudá-la um pouquinho. O que achas? Em todo o caso, gostei desse abacateiro e me solidarizo com ele.
Zi
Zi